educação Musical

INSTRUMENTOS

flauta

 

Os mais antigos instrumentos existentes são apitos de uma só nota, feitos de ossos de rena (10.000 a.C.), e flautas de osso também muito antigas, com três ou mais orifícios (as flautas de cana são de mais fácil manufactura, mas de menor duração). Ambas foram tentativas bem sucedidas na imitação da natureza - o vento assobiando num tronco oco de uma árvore ou nos canaviais, o chamamento de um mocho.

 Assobios feitos de ossos das patas de renas (40.000 a.C.)     Assobio Sudanês feito de um pedaço de cabaça     Peixe-Assobio com orifício lateral     Flauta de Pã das Ilhas Salomão     Flauta de Pã, frequentemente associada à música da América 

  Flauta transversa de bambu, da Guiana    Flauta nasal da região do Pacífico (Fiji)     Zummara beduína da Arábia Saudita      Flajolé duplo (cerca do Século XIII)     Flajolé do Século XIX dos indíos Haida, Canadá       

 

A flauta, instrumento que, por mais elementar que seja a sua concepção, é formado por um tubo geralmente cilíndrico munido de uma «embocadura» rudimentar, numa das extremidades. Qualquer que seja o tipo de instrumento considerado, uma fina corrente de ar, produzida pelo sopro do executante, quebra-se contra o bordo talhado em bisel de um pequeno orifício e esta «onda de ar» comporta-se como uma lâmina vibrante, como uma espécie de palheta aérea, animada com um movimento periódico, solidário com a coluna de ar contida no tubo. A frequência é inversamente proporcional ao comprimento desta coluna de ar. O som da flauta depende essencialmente, por um lado, da natureza e da direcção da «onda de ar» e, por outro, do comprimento da «coluna de ar».

Distinguem-se duas grandes famílias de flautas: as «flautas de bisel» e as «flautas de sopro lateral» (flauta travessa ou transversa). As primeiras estão munidas dum delicado canal que forma a coluna de ar, de que o instrumentista (colocando o bisel entre os lábios como faria para um simples assobio) não consegue dominar a direcção e a qualidade. Na flauta travessa a onda de ar é inteiramente produzida pelos lábios do flautista que lhe imprime uma certa velocidade e a dirige contra o bordo de um orifício lateral. A posição do instrumento, que é forçoso conservar atravessado na boca, explica o qualificativo «transversa». Todos os instrumentos são perfurados com orifícios que os dedos tapam e destapam para modificar o comprimento da coluna de ar (portanto, a altura do som).

As origens de um e outro instrumento remontam à mais alta Antiguidade. Infelizmente, os mais antigos modelos que se descobriram (cemitério de Ur, cerca de 3.000 anos a.C. e jazidas magdalenenses, cerca de 10.000 a.C.) não têm embocaduras que por si só permitam determinar, com exactidão, a família à qual eles pertenciam. Pelo contrário, encontraram-se belos instrumen­tos, bem conservados, provenientes do ano 200 antes da nossa era. Da mesma época podemos observar representações de flautas travessas em baixos relevos indianos. É muito possível que a flauta travessa tenha sido, na Europa, um produto trazido do Oriente.

As duas espécies de instrumentos fizeram durante séculos carreiras paralelas, mas, desde a Idade Média até ao séc. XVIII, a flauta de bisel ou «flauta doce» era a mais divulgada. Construída de madeira ou de marfim, perfurada com 6 orifícios, depois com 8, constituía, na época clássica, uma família numerosa (até 9 membros). Cinco tipos de flauta de bisei subsistem ainda nos nossos dias, particularmente na Inglaterra onde os catálogos dos editores oferecem uma abundante literatura, antiga e moderna. Poderemos mencionar:  

 

Flautim, com um som muito agudo e com uma única chave, de 1800              Flauta de bisel soprano, princípios do Século XVIII             Flauta de bisel soprano, princípios do Século XVIII

 

- SOPRANINO em FÁ (apenas em Inglaterra), frequentemente utili­zado no séc. XVIII, por Handel e Vivaldi.

- SOPRANO em DÓ (discantus, em Inglaterra) raramente empregada no séc. XVIII. Este é o instrumento mais divulgado em França; encontra-se a preços módicos em todos os comerciantes, mas é preciso não confundir com o horrível pipeau (flauta pastoril) em matéria moldada (que apenas tem 6 orifícios em vez de 8).

- ALTO em FÁ ( treble, em inglês) é o principal representante da família das flautas de bisel nos sécs. XVII e XVIII. A ela se destinam as partes de flauta de numerosas obras de Purcell, Telemann, Bach, Handel, Sammartini. Os ingleses conservam-lhe um lugar de primazia até aos nossos dias.

- TENOR em DÓ

- BAIXO em FÁ (munida de um "bocal" em fonna de «S» como o fagote). Estes dois últimos instrumentos não intervêm senão na música de conjunto «para as flautas».

FlautasHabitualmente, a flauta doce é designada nas partituras por flauto, e a flauta travessa designa-se por flauto-traverso ou traverso. Além disso, Bach tinha o hábito de escrever a primeira em clave de Sol, na primeira linha. Pensa-se que Bach ouviu pela primeira vez as flautas travessas em Dresde, em 1717.

Contudo, desde o séc. XIV, Machaut e Eustache Deschamps falam nos seus poemas de Flaustes Traversaines, e as primeiras descrições destes instrumentos encontram-se nos textos do séc. XVI com o nome de «flauta alemã». Praetorius menciona três destes tipos: baixo em Sol; tenor em Ré:

discantus em Lá; todos três cilíndricos e perfurados com seis orifícios. Em 1637, Mercenne descreveu um instrumento análogo. Mas foi Lully quem primeiro escreveu para flauta travessa (Triomphe de l'amour, 1681). Até ao séc. XIX, a flauta aperfeiçoou-se empiricamente, não sem dificuldades. A afinação de certas notas deixava a desejar, segundo a opinião de Scarlatti, Bach, Mozart e muitos outros. Orifícios equidistantes e com as mesmas dimensões davam intervalos mais ou menos falsos, segundo o tom. Remediava-se este inconveniente, quer modificando a posição dos lábios e tapando parcialmente certosFlautas orifícios, o que exigia muita habilidade, quer introduzindo «aperfeiçoamentos» no instrumento: orifícios adicionais fechados por chaves; modificações do diâmetro dos orifícios; segmentos intermediários e que se podiam trocar com outros para tocar em todos os tons com a mesma dedilhação (estes são os pontis, isto é, tubos adicionais e o instrumento que os utiliza chama-se «flauta de registos»).  

Por volta de 1680, adoptou-se a «perfuração» cónica que subsistiu até ao começo do séc. XIX (chama-se «perfuração» ao conjunto das relações entre as dimensões interiores de um tubo). Na mesma época (a flauta era então em Ré) generalizou-se a chave de Ré sustenido; foi seguida, no decurso do séc. XVIII pelas de Fá, Sol sustenido, Si bemol, etc...  

No princípio do séc. XIX, um tal Theobald Bóhm, de Munique, tomou consciência do interesse que havia em basear num estudo racional das leis da acústica a escolha do número, da dimensão e da colocação dos orifícios, com vista. a produzir uma igual qualidade de todos os sons da escala cromática. Este problema foi resolvido por meio de cálculo matemático e foi preciso, em seguida, encontrar o sistema de chaves e alavancas que permitissem fechar facilmente os orifícios cujas posições «racionais» não se acomodavam à configuração da mão humana. Ora, no sistema de Böhm, todas as chaves (salvo a de Ré sustenido) ficam abertas em posição de repouso. Para produzir o som fundamental, é preciso fechar simultaneamente 14 orifícios com 9 dedos (o décimo segura o instru­mento). Com um maravilhoso génio da mecânica Böhm encontrou a solução num sistema complexo de chaves, anilhas, alavancas («correspon­dências» que permitem agir sobre uma chave, quer directamente, quer por intermédio de uma outra, se se desejam fechar dois orifícios com o mesmo dedo). Em 1847, Böhm aperfeiçoou o seu modelo definitivo. A perfuração cónica foi abandonada para dar lugar à perfuração cilíndrica (pelo menos em 3/4 do comprimento do tubo; o último quarto, que constitui a «cabeça», é um corpo parabólico). Como material, ele aconselhava a prata ou maillechort (uma liga constituída por zinco, cobre e níquel que imita a prata), de preferência à madeira. O sistema Böhm é ainda hoje usado, de um modo geral, para a flauta. Tentou-se adaptá-lo, com resultados diferentes, aos outros instrumentos da família das «madeiras»: o OBOÉ e o FAGOTE, aproveitaram daí alguns princípios, mas apenas o CLARI­NETE utiliza o mecanismo e a dedilhação da flauta.

FlautasO som fundamental da flauta é o DÓ3 (e não o Ré), a partir do qual a extensão do instrumento é de 3 oitavas, graças aos harmónicos 2 e 4 (oitava e dupla oitava), cuja emissão, obtida pela modificação da pressão do sopro, é facilitada por dedilhação apropriada.

FLAUTIM ou PICCOLO, posto em circulação no fim do séc. XVIII, soa à oitava superior da flauta normal. As obras do começo do séc. XVIII, destinadas a um flautim, eram geralmente entregues à flauta de bisei sopranino.

FLAUTA ALTO EM SOL - instrumento transpositor que soa à quarta inferior da flauta normal. Pouco sonora, é dotada de um belo timbre, misterioso no grave.

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